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PERDEMOS OS PASSAPORTES!!!

Antes de começar essa história tem uma coisa que eu preciso contar: eu sou um pouco control freak. Coloco as coisas sempre nos mesmos lugares. A chave, carteira, documentos. E não lembro da vez que perdi algo importante. Até esse dia.

Fizemos o check out do hotel e andamos uma quadra em direção à estação de metrô mais próxima que nos levaria até o porto de Pireus. Estávamos em Atenas, Grécia, e logo mais iríamos pegar um ferry boat para fazer a travessia até uma das ilhas gregas.
Passamos a catraca da estação e fomos até a plataforma. Foi nessa hora que decidi dar uma conferida nos passaportes. Não encontrei no bolso da bermuda. “Deve estar na mochila”. Também não. “Peraí, olha de novo com calma”. Abri cada bolso da mochila novamente, agora já sendo observado atentamente pela Elisa. Nada aqui, nada ali… comecei a tirar todas as roupas e espalhar na plataforma do metrô. Agora, mais pessoas além da Elisa já olhavam pra mim. E… shit. Sabe aquele frio na barriga? Pois é.
Outro detalhe importante: moramos em Londres e os passaportes perdidos eram os italianos. Eu tinha a minha carteira de motorista do Brasil e a Elisa estava sem nenhum outro documento. Aquela fotografia das férias ideais, nós dois numa praia com águas azuis, estava desaparecendo como no filme De Volta pro Futuro 1, quando a família do Michael J. Fox vai sumindo à medida que cada coisa errada acontece.
Voltamos para o hotel. Quando atravessamos a porta de entrada, o recepcionista já viu que algo de muito errado tinha acontecido. Encontramos um recibo de um lugar que havíamos estado naquele dia e pedimos que ele ligasse pra ver se alguém havia encontrado os passaportes. Como era dia 01 de maio, feriado do Dia do Trabalho, e tudo estava fechado em Atenas, tínhamos passado o dia numa praia fora da cidade a aproximadamente uma hora do hotel. Mas já eram quase 10 da noite. O recepcionista ligou pro restaurante da praia: “Não, ninguém achou”. Pedimos que ele ligasse de novo e explicasse onde estávamos na areia. “Não. Se encontrarem, eles ligam de volta”, ele nos disse. Nessa hora, a Elisa já tinha aberto as duas mochilas na recepção do hotel. Calcinha, cueca, meia suja. Tudo ali espalhado. Que cena.
Acabamos decidindo voltar até a praia. Caminhamos pro metrô. Agora as estações ficaram mais distantes umas das outras e o trajeto levou uma eternidade. E aquela foto das férias continuava desaparecendo. Ao invés de uma praia, eu agora via um prédio de concreto com uma inscrição na frente “Consulado Italiano”.
Descemos na última estação e fomos direto ao ponto de táxi – naquele ponto havíamos pegado um táxi durante a tarde. Abordamos um motorista pra saber se algum colega havia encontrado dois passaportes italianos dos panacas aqui. Depois de explicar tudo por uns 10 minutos, vi que o cara não falava inglês. Ele me passou o telefone celular e conversei com sua esposa, que passou a fazer a tradução simultânea. Embarcamos no táxi e fomos até o local da praia onde tínhamos ficado durante a tarde. Elisa e eu reviramos as cadeiras e com nossas lanternas do celular acesas ficamos chutando areia da praia de um lado pro outro. Nada aqui. Nada ali. “Devem ter roubado enquanto dormíamos de tarde”. Fomos falar com a staff do lugar. Nem sinal. Voltamos pro táxi e a mulher do taxista, pelo celular, nos aconselhou a ir à delegacia; se tivéssemos deixado num táxi, eles teriam levado pra lá. Além da praia e do táxi, havíamos estado no metrô, numa banca de revista, numa sorveteria e numa farmácia.
O taxista nos levou na delegacia. Não era ali, o policial indicou onde era a próxima. Chegamos na segunda delegacia e nos mandaram para uma terceira, a delegacia de turismo. Quando chegamos, o taxista deixou claro que não podia fazer mais nada por nós. Era quase meia-noite já. Saímos do carro e ele zarpou. Na delegacia, fomos automaticamente transportados prum filme dos Trapalhões dos anos 80. Dois caras caricatos numa sala vazia e com móveis velhos e empoeirados, fazendo piadas entre eles e não dando a menor bola pra gente. Nos deixaram esperando uns minutos e então começaram a preencher a ocorrência. O mais caricato deles, de bigode e boné – tava faltando um Ray-Ban espelhado no figurino do cara –, perguntava os detalhes e o outro digitava. Enquanto isso, eles também discutiam. Finalmente, o outro policial – sem bigode –, falando um inglês de nível básico 3 do Cultural, disse que iria imprimir o documento da ocorrência, mas que talvez o consulado não aceitasse, porque era provisório e eles não tinham como fazer a outra cópia naquela hora. Ele levou uma meia hora pra nos explicar isso. Juro que nessa hora a foto de férias da praia desapareceu completamente da minha cabeça. Eu só via nós dois numa sala de espera do consulado italiano tentando explicar o que tinha acontecido e porque não falamos uma palavra sequer na nossa língua de origem.
Depois de uns 40 minutos, com a ocorrência na mão e as esperanças embaixo da sola do pé, saímos da delegacia. Era meia noite e trinta. Quando pisamos na calçada, sem saber direito o que fazer, Elisa viu a farmácia que havíamos estado à tarde para comprar um protetor solar. “Vou ali dar uma olhada. Vai que, né?”. Uns segundos depois: “Vem aqui. Acho que tem dois passaportes em cima do balcão da farmácia”. Pensei “Ah tá. É. Ahã. Com certeza”. Cheguei perto da vitrine da farmácia e pareciam mesmo os dois passaportes em cima do balcão, embora fosse noite, as luzes apagadas e o balcão estivesse a uns três metros de distância da gente.
Pegamos um Uber de volta pro nosso hotel e no caminho combinamos de acordar o mais cedo possível e voltar praquela farmácia antes que eles abrissem. Nessa hora, já tínhamos perdido o ferry boat pra ilha, mas não a esperança. Dormimos um pouco e às 6h15min da manhã já estávamos saindo do hotel em direção à farmácia. Pegamos o mesmo metrô, depois um táxi no mesmo ponto. Contei a mesma história pro taxista e às 7h30min chegamos lá na frente da farmácia. Pegamos um café e sentamos na calçada, sem antes olhar mais umas dez vezes na direção do balcão. Era nossa última esperança. 8h em ponto uma funcionária chegou. Ela mal abriu a porta e eu entrei correndo feito um cavalo sem freio. Fui até o balcão e olhei. Não. Não acredito. Eram os passaportes. Quase beijei a senhora na boca. Saímos dali com a certeza que eu iria sofrer piadas eternas por aquele fato. E a nossa foto que estava desaparecendo voltou a ser o que a gente imaginava.

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